Ruivas, Louras & Morenas

terça-feira, 6 de maio de 2008
Há pouco tempo rebentou entre a Ambev (grande cervejeira do Brasil, e distribuidora naquele país de parte substancial das cervejas importadas para o seu enorme mercado) e as ACervAs (Associação de Cervejeiros Artesanais) Carioca, Paulista, Mineira e Gaúcha, entidades criadas por cervejeiros artesanais caseiros, sem fim económico, que têm por objectivo a difusão da cultura cervejeira) uma polémica resultante de um lamentável texto editado pela cervejeira no seu site, em que se criticava uma pretensa falta de qualidade das cervejeiras caseiras. As ACervAs reagiram com um esclarecimento público muito bem fundamentado e com toda a razão do seu lado, e a Ambev acabou por reconhecer o erro, e retirou o texto.
A determinada altura da sua exposição, as ACervAs referem que: "Para a sorte da cerveja e de sua cultura, entretanto, na Europa e Estados Unidos, onde primeiro surgiram os grandes conglomerados industriais cervejeiros, há mais de 30 anos, iniciou-se o movimento denominado por The Craft Beer Renaissance (“O Renascimento da Cerveja Artesanal”), que culminou com o resgate de estilos de cervejas há muito esquecidos, como barley wine, rauchbier, doppelbock, porter, pale ale, entre outros, por exemplo. Assim, teve início o resgate da qualidade da cerveja e valorização de quem a faz, o cervejeiro, e com difusão livre de conhecimentos e experiências. Hoje, apenas nos Estados Unidos, conta-se com mais de 30 mil cervejeiros caseiros e quase 2 mil microcervejarias, que quebrando diversos paradigmas como o da cerveja “estupidamente gelada”, vêm impressionando o mundo, as grandes cervejarias, seus mestres cervejeiros e os consumidores com a qualidade das suas cervejas, ensinando correctamente os consumidores sobre como apreciar e o que esperar de cada estilo de cerveja."
Nada mais certo. Este notável movimento deu origem ao despoletar do engenho e criatividade de muitos cervejeiros e é graças a ele que hoje a cerveja é cada vez mais respeitada, embora ainda por poucos reconhecida como a bebida nobre que é.
Os actuais cervejeiros da De Dolle, em Esen-Bélgica, que reanimaram nos anos 80 do século XX uma cervejeira moribunda, são decerto dos mais inovadores da nova geração cervejeira (se bem que as raízes da casa viessem desde meados do século XIX), e os seus produtos, dignos de grande atenção.
Como é o caso desta Triple, a De Dolle Dulle Teve.
A generosa gola de espuma encimando um corpo alaranjado com alguma suspensão, proporciona sem dúvida um agradável espectáculo para a vista. Mas os restantes sentidos que para aqui são chamados. Os aromas frutados são acentuados - é o pêssego, a maçã, um pouco de abacaxi, talvez, tudo bastantes adoçado - e um irrefutável odor a leveduras.
Os sabores são ainda mais intensos e muito complexos, tendo sempre um fundo de frutos frescos, a citrinos e a especiarias. Mas torna-se muito difícil distinguir todos. No fim, a intensidade mantém-lhe a presença e o vigor extraordinário. Porque esta é uma tripel extraordinária, e o nome (que significa realmente Mad Bitch), não podia ser mais apropriado, porque esta é uma cerveja perigosa: aqueles 10% de Abv notam-se bem, no palato e no pós degustação pode realmente fazer estragos.
Não é portanto indicada a…espíritos sensíveis.
De Dulle Teve (Mad Bitch) - **********




Cervejeira: Brouwerij De Dolle Browers, Esen-Bélgica
Vol/Alc: 10% Abv
Ano: 2007
Tipo: Triple
Copo: Goblet



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posted by Vic at 5/06/2008 03:07:00 da tarde |


2 Comments:


At 8 de maio de 2008 às 23:18, Blogger JC

Já agora, se não estiver a ser indiscreto: como nasceu este seu interesse pelas cervejas, tão pouco habitual num país vinícola?
Abraço
JC

 

At 9 de maio de 2008 às 12:54, Blogger VdeAlmeida

Meu caro JC

Nunca apreciei vinho, e sejamos francos, uma refeição acompanhada de água ou sumo é muito pouco sedutor.
Bom, a história é maior. Durante muitos anos fui abstémio por opção (mesmo hoje bebo com muita, mas mesmo muita moderação(, e só quebrava o voto para beber um champanhe brut - que é uma bebida a que não resisto - em alturas festivas).
Um dia num almoço, por curiosidade, pedi uma Bohemia á pressão, que me soube especialmente bem. E foi assim que rompi definitivamente o meu periodo de jejum, até porque entretanto descobri cervejas muito diferentes das comuns sagres ou sb, de que sinceramente não gosto, e que me abriram perspectivas que me "atiraram" para esta nova aventura que me agrada muito.
Abraço

Vic